Obrigado, Carnavalesco!

Carnavalesco, escrevi essa carta sincera.

Desde sempre na minha vida, sou um apaixonado por carnaval que nem você. Mas foi apenas em 2021, em meio a dor do isolamento forçado que o mundo sofria, que nossos destinos se cruzaram.

Aqui devo fazer uma confissão: eu não lembro se o conhecia antes do meu irmão, Luciano, me compartilhar uma publicação em que você estava aceitando currículos de jornalistas para trabalhar na sua equipe de São Paulo. Estava ao fim do meu segundo ano de faculdade, mas minha mente estava corroída de um mal no qual enfim me livrei, muito graças a você por sinal. Enviei meu currículo e passei a aguardar.

Fiquei muito contente com o retorno! Mas o adiamento do carnaval de 2022 fez nossa união virar uma incógnita. Será que eu seria chamado mesmo? Admito que fiquei agoniado. Era a oportunidade de realizar o sonho de deixar de ser apenas um expectador de arquibancada no Anhembi, a qual eu frequentava desde 2008. Foi apenas em fevereiro daquele ano, quando seria a festa originalmente, que nossa história enfim começou.

E que lugar melhor para isso ocorrer do que em um ensaio de rua da minha, da sua, da nossa Mocidade Alegre, não é mesmo? Era uma sexta-feira, e em uma praça dentro do Limão que conheci o líder da paulistada, Gustavo. Um garoto ainda, bem mais novo do que eu, mas com uma vida dentro do samba e toda uma experiência para passar que eu jamais imaginei que teria, e que hoje o considero um irmão, que carregarei no meu coração para o resto da vida. Naquele dia, me senti em um jogo de videogame. Eu estava lá apenas para aprender, mas minhas memórias são vívidas de uma aventura em um mundo de sonhos. Como assim ganhei um refri da Tia Sol?! Aquele dia foi sensacional e jamais esquecerei.

2023, um ciclo interminável

Em 2023, você me permitiu assistir, da pista do Anhembi, a Morada ser campeã. Me deu a missão de fazer a crônica daquele desfile, e juro que fui imparcial naquele texto mesmo sendo a minha escola do coração, mas fazer o que se ela foi perfeita? Por obra do destino, ao longo daquele ciclo, um dos meus ídolos criou um vínculo comigo o qual eu não sei explicar até hoje. Eu o vi com um semblante triste ao fim do desfile das campeãs de 2022, e após entrevistá-lo durante um evento no meio do ano, ele se abriu tão naturalmente comigo que resolvi falar o que senti naquele dia e perguntei se poderia dar um abraço nele. Obrigado por mais esse irmão do samba que me apresentou.

2023 também reservou para mim o momento mais importante da minha vida: o TCC da minha faculdade de jornalismo. Fazer algo relacionado ao carnaval era muito óbvio, e graças ao prof. Antônio Lúcio Assiz, que curiosamente tem o mesmo nome composto do meu pai, só que em ordem trocada, o que era para ser um documentário geral sobre a construção de um desfile se tornou um específico sobre a construção de um samba-enredo. Eu não teria conseguido realizar um projeto, literalmente nota 10, se não fossem as aberturas que você me proporcionou.

Mas aquele ano virou, e poucos dias depois, a dois dias do início dos ensaios técnicos, passei por um dos momentos mais turbulentos da minha vida. Minha mãe adoeceu gravemente, e por conta disso não pude estar com você naquela semana. O que em muitos locais de trabalho representaria o fim, com você foi diferente. Você me apoiou, teve paciência comigo, e quando chegaram os desfiles eu chorei como nunca naquele Anhembi ao ver o samba que vi nascer durante meu TCC ser campeão do carnaval.

A construção da despedida

Ainda fiquei vários meses me dedicando aos cuidados com a minha mãe depois que ela saiu do hospital, logo após o carnaval. A partir daquele momento, a roda da vida resolveu começar a tomar uma outra direção, que acabou por começar a infelizmente nos afastar. Passei a não cobrir mais eventos com a mesma frequência, mas alguns desgastes ocorridos pela nossa forma de trabalho também começaram a ser sentidos.

Ao longo de todos esses anos, fui lapidando a minha forma de escrever meus textos, em especial as crônicas. Mas ser cronista no carnaval de São Paulo é um trabalho extremamente ingrato, ainda mais com a forma com a qual nos relacionamos com as escolas de samba durante o ciclo. Conversamos com os profissionais ao visitar quadras e cobrir eventos, e nesse processo nós damos muitas risadas, aprendemos bastante... mas nos ensaios técnicos e nos desfiles, precisamos analisar imparcialmente, mas com base no nosso conhecimento adquirido ao longo da vida como sambistas.

Não somos jurados, não somos treinados para dar notas, mas passei a ver nossas crônicas, principalmente de ensaios técnicos, como uma forma de os artistas colherem alguma informação para otimizar suas preparações para o dia do desfile. Mas adianta o que, se ao apontar falhas percebidas quando nem nota está valendo, temos que aturar essas pessoas vindo reclamar, quando não nos ameaçar? Será que eles se esquecem que somos apaixonados por carnaval e, portanto, queremos o bem deles? Acham que alguém nos paga para sermos hostis com eles? Se soubessem que o trabalho de nós, jornalistas de carnaval, é praticamente um voluntariado em termos financeiros, pensariam duas vezes antes de esbravejar. O carnaval lida com muitas emoções, e raiva não pode ser uma delas.

O corpo passou a me cobrar. Ao fim de cada ensaio técnico, anualmente as dores foram se tornando cada vez maiores. A minha mudança para o interior, com outras necessidades surgindo, só nos afastou ainda mais, e isso começou a me doer no fundo da alma. Passei a falhar com você na entrega de trabalhos, comecei a ver meus textos perdendo qualidade, e isso começou a me corroer gradativamente.

No ciclo de 2026 eu mal te vi, mas ainda tive uma oportunidade de vida, que você me proporcionou, ao entrevistar o lendário poeta Paulo César Pinheiro. Ao todo, foram pelo menos 5 grandes entrevistas feitas com muito entusiasmo, sendo essa meu último suspiro de vigor antes do momento que agora chegou.

Hoje eu me despeço de você como membro da sua equipe, mas seremos eternamente irmãos do samba. As lições que me proporcionou serão carregadas para todos os lugares em que eu for. Você não apenas deu minha primeira oportunidade de trabalho como jornalista, você me fez amar ainda mais a festa!

Mais que amar a festa, você me fez querer cuidar ainda mais dela. E nesse momento, para que eu consiga me revigorar e realizar novos sonhos dentro do carnaval, é preciso que sigamos caminhos distintos.

O site Carnavalesco não é lugar para os fracos! São dedicados profissionais que sacrificam muitas coisas em nome de proporcionar ao mundo as informações que eles precisam para se manter atualizados e bem informados da verdade sobre o mundo do samba. São apaixonados por carnaval, que muitas vezes não conseguem assistir nem metade de uma noite de desfiles inteira, para levar ao público o melhor conteúdo possível.

Ao mundo do samba, eu só peço uma coisa do fundo do meu coração: valorizem os profissionais da imprensa. Arrisco dizer que menos de 5% deles de fato lucram alguma coisa com a cobertura do carnaval. Quase todos tiram do próprio bolso para deixar os sambistas bem informados. É uma realidade dura, e muito sangue e suor são dedicados a isso. Fazemos isso principalmente por amor. Podem ter certeza disso.

Nos vemos nas arquibancadas por aí.

Fui!

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