"Nunca se esqueça dessa data"
Responsabilidade afetiva também é sobre os sonhos que criamos juntos.
"Há histórias que acabam quando duas pessoas deixam de se falar. Outras continuam existindo dentro de nós durante muitos anos. Esta é uma delas."
Há exatos dez anos, a Typhi me pediu em namoro. Foi o início do único relacionamento da minha vida.
E disse uma frase que ficou marcada para sempre em minha mente:
"Nunca se esqueça dessa data."
Pois bem, eu nunca me esqueci.
Por mais que tenha durado apenas alguns meses.
Aqui estou eu, dez anos depois, lembrando daquele momento como se tivesse acontecido ontem.
Já me perguntaram se eu ainda penso nela.
A resposta é curiosa.
Não penso nela todos os dias.
Mas basta uma lembrança surgir para que, por alguns instantes, eu volte a ser aquele rapaz de vinte e seis anos que acreditava que havia encontrado a pessoa com quem construiria uma vida inteira.
Durante muito tempo eu pensei que este texto seria sobre responsabilidade afetiva.
Hoje percebo que ele é sobre memória.
Sobre promessas.
Sobre desencontros.
E sobre o enorme cuidado que precisamos ter quando passamos a ocupar um lugar importante na vida de alguém.
⁂
Conheci a Typhi por acaso, durante o Anime Friends de 2015.
Eu estava tentando gravar algumas entrevistas para uma página de Sonic da qual fazia parte.
Ela era amiga de amigos meus das antigas.
Estava fantasiada de uma versão humana da Amy Rose.
O cosplay era extremamente fiel.
Vestido vermelho.
Botas.
E um martelão enorme.
Mas também carregava uma expressão meio invocada, admito.
Naquele dia, com aquela mesma cara fechada, ela fez questão de me ajudar com meu trabalho.
Intrigante.
Meses depois, ela vinha puxar assunto comigo no WhatsApp de vez em quando.
As conversas foram ficando cada vez mais frequentes.
E o bobo aqui... entendendo absolutamente nada.
Até que, no aniversário de um amigo, ela apareceu com um presente para mim.
Um chaveiro ultrarrealista de coxinha.
Tinha comprado na CCXP.
Ela sabia que eu queria, mas não iria ao evento.
Entendi nada, mas aceitei feliz.
Continuava fazendo a mesma cara séria daquele dia de AF.
Curiosamente, era o completo oposto da menina doce que existia do outro lado do WhatsApp.
⁂
Eu não pude ir ao aniversário da Typhi naquele ano.
Era sábado de Carnaval.
Como em todos os anos, eu estava no Anhembi.
Ainda assim, mesmo cercada pelos amigos, ela passou boa parte da noite falando comigo pelo celular.
Em determinado momento, disse que queria ir comigo ao Desfile das Campeãs.
Achei estranho.
Ninguém nunca tinha demonstrado vontade de fazer isso.
Na semana seguinte, lá estávamos nós.
Em algum momento da madrugada, o frio apertou.
A Typhi tinha saído sem levar um agasalho.
Tremia.
Eu a abracei para aquecê-la, quase que por instinto.
Só no final da noite, lembrei que havia uma camisa na mochila.
Era para a viagem à praia que eu faria logo depois, com outro grupo de amigos.
Eu era ingênuo demais para entender o que ela queria de mim.
⁂
Quando conheci a Typhi, eu estava desempregado havia mais de um ano.
Vivíamos momentos parecidos.
Tínhamos tempo.
Conversávamos muito.
Nos encontrávamos sem pressa.
Naquele período ela ainda carregava outra pessoa dentro do coração.
Em uma conversa, depois de eu dizer que queria cuidar dela, ouvi uma resposta que nunca esqueci:
"Meu coração está com o Peter. Vai lá buscar com ele."
Mesmo assim permaneci.
Não porque acreditasse que insistir fosse mudar alguém.
Mas porque, aos poucos, nossa amizade foi se transformando em algo diferente.
⁂
Com o apoio da Typhi e da Vivian, minha melhor amiga, consegui enfim um emprego.
Era vendedor.
Começava ali a rotina ingrata da escala 6x1.
O primeiro mês foi tomado pela expectativa de ser efetivado e pela sensação de que, finalmente, a vida começava a andar.
Então veio o choque.
A Vivian morreu.
De repente, um dos maiores alicerces da minha vida deixou de existir.
Ela tinha estado ao meu lado nos momentos mais difíceis que vivi até então.
Quando perdi a Vivian, só uma pessoa se ofereceu para me emprestar o ombro.
A Typhi.
Naquele momento, sem que eu percebesse, meu coração já não tinha mais volta.
⁂
Um dia preparei uma surpresa.
Encomendei uma camisa de futebol de um país que ela adorava, com o apelido dela estampado.
Passei horas fazendo brigadeiros inspirados nas cores daquela bandeira.
Antes disso, por vários dias, transformei meus colegas de trabalho em cobaias dos meus doces.
Escondi tudo no carro.
Queria finalmente criar coragem para conquistá-la.
Curiosamente, antes mesmo de eu entregar qualquer presente, ela segurou minha mão.
Mais tarde, me deu um selinho enquanto descíamos uma escada rolante.
Até hoje não sei se meus brigadeiros mudaram alguma coisa.
Talvez ela já tivesse decidido antes.
Talvez não.
Acho bonito não saber.
⁂
Aquele foi um mês muito bonito, admito.
Nunca alguém havia demonstrado tanto carinho por mim.
Ela era dengosa.
Fazia muita manha.
E eu, marinheiro de primeira viagem, não sabia muito bem como lidar com aquilo.
Na verdade, acho que até hoje ainda cometeria erros primários.
Sempre fui um pouco desengonçado.
A Typhi tinha um jeito curioso de existir.
Não gostava de ser chamada de mulher.
Dizia ser uma menina.
Eu sorria.
Aquilo parecia combinar tanto com ela quanto as discretas mechas azuis escondidas entre os cabelos.
Ela tomava café do jeito mais forte possível.
Sem açúcar.
Gostava de chocolate quase puro.
Eu odiava café.
Foi ela quem me ensinou a tomar um chopp escuro de vez em quando.
Um dia apresentei a ela uma música.
Gatinha Manhosa, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos.
Sem perceber, ela passou a ser a minha gatinha manhosa.
Passávamos horas fazendo absolutamente nada.
Nos considerávamos "companheiros de vários nadas".
Hoje percebo que eram justamente aqueles vários nadas que eu sonhava transformar em uma vida inteira.
Mas em algum momento, essa fase colorida começou a ganhar tons de cinza.
⁂
Não muito tempo depois, ela sofreu uma tentativa de assalto na porta de casa.
Dias depois ouviu tiros na rua.
Ficou muito abalada.
Manifestei alívio por ela estar bem.
Mas ela me chamou de "pessoa horrível", alegando que ignorei a possibilidade de alguém ter se ferido.
Mas desde então, sempre que podia, eu fazia questão de buscá-la e levá-la até a porta de casa.
Não era um sacrifício.
Era uma forma silenciosa de dizer:
"Enquanto eu puder, você não vai voltar sozinha."
Naquela época, eu realmente acreditava que daria a minha vida por ela.
Ela era meu maior tesouro.
⁂
Até que chegou o Anime Friends de 2016.
Um ano depois de eu a conhecer.
No sábado, não puder ir por causa do trabalho.
Mas algo aconteceu por lá.
Depois de muito tempo, ela reencontrou o Peter no evento.
E ficou evasiva até o dia seguinte.
Quando, ao nos encontrarmos, mal me cumprimentou.
Simplesmente decidiu interromper tudo o que estávamos construindo, sem dar mais explicações.
Entrei em tamanho estado de choque que a minha única reação foi chorar.
Um choro alto, intenso.
Precisei ser amparado pelos nossos amigos.
Demorei muito para me recompor.
Naquele dia descobri uma verdade da qual nunca mais consegui escapar.
Meu coração já tinha escolhido ela.
E quem viu aquela cena naquele dia jamais imaginaria o que aconteceu uma semana depois.
⁂
Typhi resolveu fazer uma viagem repentina.
Pegou um avião para outro estado.
Queria passar alguns dias com a melhor amiga.
Tão próximas que até compartilhavam uma tatuagem.
Alguns dias depois, ela voltou a falar comigo sem parar.
Alguma coisa nela tinha mudado.
Pediu que eu fosse buscá-la no aeroporto.
Depois de tudo o que tinha acontecido?
Achei estranho.
Mas fui.
Almoçamos em um dos restaurantes favoritos dela.
E encontrei uma Typhi completamente diferente.
Sorridente.
Leve.
Animada.
Ela dizia o tempo todo que eu precisava estar preparado para o domingo.
Haveria um churrasco com nossos amigos.
A Typhi não era de dar muitas explicações.
Mas não vou negar.
Estava ansioso por aquele domingo.
⁂
O domingo chegou.
Busquei a Typhi em casa e seguimos para a casa do nosso amigo Polo.
Finalmente um churrasco sem o mala do magrelo metido a alemão para estragar a carne.
Quem assumiu a churrasqueira?
Eu.
E, modéstia à parte, até que dei conta do recado.
Mas, entre um pedaço de carne e outro, aconteceu uma coisa que eu jamais esperava.
Sentado entre os nossos amigos, vi a Typhi simplesmente se acomodar no meu colo.
Continuamos conversando como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
Então, no meio da conversa, ela me beijou.
O beijo mais espontâneo e indiscreto que já tinha me dado até então.
Ainda hoje me surpreendo por ter reagido com tanta naturalidade.
Apenas correspondi.
De corpo e alma.
Ao final daquele dia, entramos no meu carro.
Antes mesmo de eu ligar o motor, a Typhi olhou para mim e disse a frase que, anos depois, daria título a este texto:
"Nunca se esqueça dessa data."
Não vou lembrar exatamente as palavras que disse.
Acho que disse que a amava.
Ou alguma coisa parecida.
Mas nunca esqueci a resposta dela.
Porque ela sorriu e respondeu:
"Eu te amo. E olha que você sabe como é difícil eu dizer isso."
Naquele instante, era oficial.
Eu e a Typhi estávamos namorando.
⁂
A primeira semana foi doce.
Tão doce que até hoje parece pertencer a outra história.
Como eu teria folga do trabalho na sexta e no domingo, combinamos o fim de semana dos sonhos.
Na sexta, iríamos a Santos.
De sábado para domingo, dormiríamos na casa de um amigo.
Na sexta-feira, saí direto do trabalho para a casa da Typhi.
Ela preparou um miojo para o meu jantar.
Era uma refeição simples.
Mas eu senti carinho em cada garfada.
Assistimos abraçados a O Rei Leão, na tela do notebook dela.
Como eu gostei daquela noite.
No dia seguinte, passeamos por Santos.
Visitamos o Museu do Café.
Caminhamos pela praia.
Ficamos abraçados sentindo a brisa do mar.
Na volta, nos beijamos dentro do carro até os vidros embaçarem.
No domingo, jogamos jogos com nossos amigos até de madrugada.
Em algum momento, o cansaço da semana de trabalho finalmente me venceu.
A Typhi me levou até o quarto.
Deitei nos braços dela.
Recebi cafuné até adormecer.
Acho que nunca me senti tão cuidado quanto naquele momento.
No dia seguinte, fizemos juntos o almoço para todo mundo.
Em determinado momento, ela me chamou de "amor" enquanto me pedia uma coisa.
Foi espontâneo.
E bastou isso para eu ficar completamente bobo.
Aquele foi, sem dúvida, o melhor fim de semana da minha vida.
Essas lembranças continuam vivas dentro de mim.
Talvez porque tenham sido poucas.
Talvez porque tenham sido sinceras.
Mas com o tempo, as diferenças entre nossas realidades começou a interferir na relação.
⁂
Nossas realidades, outrora parecidas, ganharam muitas diferenças.
Com meu emprego, passei a trabalhar em escala 6x1.
O rapaz que antes tinha tempo de sobra passou a viver contando os dias até a próxima folga.
Enquanto isso, ela, que só fazia faculdade, dizia que já passava tempo demais em casa.
Queria sair.
Conhecer lugares.
Encontrar pessoas.
Eu queria exatamente o contrário.
Depois de atravessar cidades, trabalhar a semana inteira e passar horas em transporte público, meu maior sonho era fechar a porta da minha casa e simplesmente assistir uma série abraçado nela.
Prometemos maratonar séries.
Montar quebra-cabeças.
Construir pequenas tradições.
Mas quase nada disso aconteceu.
⁂
Morávamos em mundos diferentes.
Ela vivia na Zona Oeste de São Paulo.
Eu, no Grande ABC, encrustado entre as Zonas Leste e Sul.
Encontrá-la significava atravessar boa parte da Região Metropolitana de São Paulo.
Duas linhas de metrô.
Um trem.
Um ônibus.
Uma caminhada.
No fim do dia, tudo isso de novo para voltar para casa.
Ela foi apenas uma vez à minha casa.
Foi no almoço em que conheceu minha mãe.
Foi o dia em que a Musa, minha gata cearense, deitou espontaneamente no colo dela.
Lembro dela sorrindo e dizendo:
"Ela é tão pequenininha!"
Curiosamente, era exatamente isso que eu pensava quando olhava para a Typhi.
⁂
As diferenças começaram a aparecer.
Ela queria estar cercada de amigos.
Eu queria descobrir quem nós éramos quando o resto do mundo não estava por perto.
Ela se encantava com HQs.
Mas tinha dificuldades em apresentar esse mundo para mim.
Por mais interesse que eu tivesse nele.
Ela gostava da rua.
Eu sonhava com o sofá.
Ela dizia não acreditar em casamento.
Eu sonhava apenas com um lugar onde pudéssemos chamar de nosso.
Ela escondia o namoro das redes sociais.
Eu só queria viver aquilo sem medo.
Nenhum de nós estava necessariamente errado.
Mas, olhando hoje, percebo que caminhávamos para lugares diferentes.
⁂
Mesmo assim, havia carinho.
Havia cafunés.
Havia beijos demorados dentro do carro.
Havia mãos dadas na hora de dormir.
Havia o sorriso dela visto de muito perto.
Um sorriso que, curiosamente, eu não achei bonito quando a conheci.
Talvez porque no começo quase sempre estivesse com uma expressão fechada.
Mas o amor fez um trabalho que nenhuma maquiagem conseguiria fazer.
Transformou aquele rosto ranzinza no mais bonito que eu já tinha visto.
⁂
Depois tudo foi se desfazendo.
Vieram discussões.
Silêncios.
Outras pessoas passaram a ocupar os nossos assuntos.
Nosso namoro tentou resistir aos conflitos.
Chegamos a até mesmo, por um breve momento, ter um rompimento, mas poucos dias depois voltamos.
Tanto que, na virada para o ano de 2017.
Nosso primeiro ato foi nos beijarmos.
Desejamos feliz ano novo um para o outro.
Prometemos que teríamos um ano muito feliz.
Até dormimos abraçados naquela noite.
Nunca que eu poderia imaginar que tudo acabaria poucos dias depois.
⁂
Apesar da virada mágica, as diferenças continuaram crescendo.
Vieram discussões.
Vieram silêncios.
Aos poucos, outras pessoas passaram a ocupar os nossos assuntos.
Mesmo assim, continuávamos tentando.
Em um desses momentos, chegamos até a nos afastar por alguns dias.
Mas voltamos.
E aquilo me fez acreditar que ainda conseguiríamos encontrar um caminho.
⁂
Então chegou a virada para 2017.
Passamos o réveillon na casa daquele mesmo amigo.
Pouco antes de dormirmos, aconteceu algo curioso.
Meses antes, eu havia adormecido nos braços dela.
Naquela noite, os papéis se inverteram.
Ela adormeceu nos meus.
Antes disso, à meia-noite, nos viramos um para o outro quase por instinto.
Ignoramos completamente o fato de estarmos cercados de amigos.
Nosso primeiro ato em 2017 foi um beijo.
Desejamos um feliz ano novo.
Prometemos que aquele seria um ano feliz.
Hoje ainda acho curioso pensar que, enquanto fazíamos promessas para o futuro, o nosso futuro já estava quase no fim.
⁂
Talvez por perceber que as diferenças entre nós cresciam cada vez mais, comecei a fazer um esforço desesperado para entrar no mundo dela.
Ela falava sobre HQs com um brilho nos olhos.
Eu queria entender aquele brilho.
Pedi que me apresentasse aquele universo.
Ela dizia que não conseguia.
Que era difícil assumir esse papel.
Mesmo assim, continuei insistindo.
Um dia, tentando explicar por que aquilo era importante para mim, disse que tudo o que ela falava sobre HQs ainda soava como "vinagre".
Era uma piada interna da nossa turma.
Significava algo completamente sem sentido.
Eu só queria dizer que desejava deixar de me sentir um estranho dentro de um assunto que fazia parte da vida dela.
Mas escolhi as palavras erradas.
⁂
Na semana seguinte, viajaríamos para a cidade natal de um amigo.
A viagem acabou cancelada poucas horas antes da saída, por motivos alheios a nós dois.
Foi então que a Typhi pediu para conversarmos.
Disse que pretendia esperar a viagem terminar.
Como ela não aconteceu, decidiu fazer aquilo ali mesmo.
Disse que eu a havia machucado quando comparei as HQs a "vinagre".
E terminou comigo.
Meu mundo desabou.
Curiosamente, a última tentativa de me aproximar do universo dela acabou se tornando o motivo pelo qual terminamos.
⁂
Apesar disso, tentamos continuar amigos.
Ainda nos encontrávamos nas minhas folgas.
Mas alguma coisa já tinha mudado.
Aos poucos, ela passou a falar sobre outros homens.
Eu ouvia.
Fingia que estava tudo bem.
Mas cada comentário machucava um pouco mais.
Um dia, convidou para um passeio justamente uma pessoa de quem costumava reclamar durante o nosso namoro.
Passei a tarde inteira tentando ignorar o quanto aquilo me incomodava.
Não consegui.
Em outra ocasião, durante um filme, ela passou boa parte do tempo trocando mensagens com alguém por quem demonstrava interesse.
Foi ali que percebi que eu já não conseguiria continuar daquele jeito.
Na volta para casa, pedi que conversássemos.
Contei o quanto aquelas situações vinham me machucando.
Perguntei por que ela parecia tão diferente da pessoa que eu havia conhecido poucos meses antes.
E admiti uma última verdade.
Eu ainda a amava.
Ela apenas respondeu que precisávamos passar um tempo sem nos falar.
Eu estava chorando.
Antes que ela entrasse em casa, abri os braços pedindo um último abraço.
Ela balançou a cabeça em negativa, e disse que seria melhor assim.
Entrou.
Fechou a porta.
Foi a última vez que a vi.
⁂
Durante muito tempo procurei descobrir quem estava certo.
Quem errou mais.
Se foi minha inexperiência.
Se foi a falta de iniciativa.
Se foi o trabalho.
Se foram as diferenças.
Hoje já não procuro mais uma resposta única.
Relacionamentos raramente terminam por um único motivo.
Eles acabam quando pequenas incompatibilidades deixam de ser conversadas.
⁂
O curioso é que, dez anos depois, eu continuo não sentindo falta das grandes coisas.
Não sinto falta dos presentes.
Nem das viagens.
Nem das datas.
Sinto falta da minha gatinha manhosa.
Dos nossos vários nadas.
Do café preto que eu nunca beberia.
Da maneira como ela fazia cafuné.
Do sorriso visto de perto.
Do beijo que embaçava o vidro do carro.
Da menina que insistia em dizer que não era mulher.
⁂
Ouvi muitas histórias sobre quem a Typhi se tornou depois que nossas vidas seguiram caminhos diferentes.
Algumas delas foram muito duras.
Não sei quais são verdadeiras.
Nem importa tanto.
Prefiro guardar comigo a esperança de que, nesses dez anos, ela também tenha amadurecido.
Que tenha encontrado paz.
Que tenha encontrado felicidade.
Que tenha se tornado uma pessoa ainda melhor do que aquela menina manhosa por quem um rapaz de vinte e seis anos se apaixonou.
⁂
Se existe uma conclusão para tudo isso, talvez seja esta.
Responsabilidade afetiva não é apenas evitar machucar alguém durante um relacionamento.
É entender que, quando prometemos um futuro a alguém, passamos a habitar também os sonhos dessa pessoa.
Quando vamos embora, não levamos apenas a nossa presença.
Levamos também a rotina que nunca existiu.
As séries que nunca assistimos.
Os quebra-cabeças que nunca montamos.
A casa que nunca construímos.
Ainda hoje, às vezes, eu sonho com ela.
Na maioria desses sonhos estamos felizes.
Acordo chorando.
Depois sorrio.
Porque, apesar de toda a dor que essa história ainda carrega, existe uma certeza da qual nunca consegui abrir mão.
Durante um breve momento da minha vida, eu tive uma gatinha manhosa para chamar de minha.
E isso, por si só, já foi um privilégio.

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